terça-feira, 21 de agosto de 2007

Texto 3 - Limites e possibilidades da agroecologia (...)


LIMITES E POSSIBILIDADES DA AGROECOLOGIA COMO BASE PARA SOCIEDADES SUSTENTÁVEIS
João Carlos Costa Gomes[1]
Marcos Borba[2]
A origem da Agroecologia é tão antiga quanto as origens da agricultura. As agriculturas tradicionais, indígenas ou camponesas, quando analisadas pelos pesquisadores, revelam sistemas agrícolas complexos que incorporam o uso de recursos renováveis localmente disponíveis em desenhos que integram comportamentos ecológicos e estruturais de solo e vegetação, tendo como base os conhecimentos gerados durante muitos e muitos ciclos produtivos, transmitidos pelas gerações. No entanto, a Agroecologia como campo de produção científica, bem como a aplicação de seus princípios na agricultura, na organização social e no estabelecimento de novas formas de relação entre sociedade e natureza, surge a partir dos anos 1970. Atualmente, o tema é objeto de políticas públicas, tanto de organizações do Estado como da sociedade.

Inicialmente, é preciso localizar a perspectiva agroecológica e suas possibilidades no debate teórico. E que em alguns ambientes se discute se a Agroecologia representa ou não um novo paradigma. Cabe lembrar que o conceito de paradigma, como formulado por Tomas Kuhn[3], referia-se a uma espécie de código interno à própria ciência, representando um conjunto de regras, métodos e técnicas utilizados para identificar e resolver problemas, bem como as respostas aceitas como válidas por uma determinada comunidade científica em um determinado contexto histórico. Ou seja, quando adere a um paradigma, um pesquisador aceita ao mesmo tempo teoria, métodos e normas reconhecidas e aprovadas pelo grupo que o pratica, quase sempre em uma mescla inseparável. Mais tarde Fritjof Capra[4] e Boaventura de Sousa Santos[5] ampliaram o conceito, conferindo-lhe a possibilidade de explicar a relação da ciência com a sociedade e até mesmo de explicar os arranjos sociais em cada contexto histórico.
O conceito de incomensurabilidade, causa de tanta polêmica na obra de Tomas Kuhn, dizia que dois cientistas ou duas pessoas que professam paradigmas diferentes, quando estão na mesma posição e olham para o mesmo ponto, vêem sempre coisas diferentes. Portanto, o que nasce seria incomensurável com o que morre, não havendo, pois, nem ressurreições nem reencarnações, e a passagem só seria possível entre pensamentos comensuráveis. Só depois de passados muitos anos ou séculos seria possível afirmar a morte de um paradigma e determinar a data aproximada em que ocorreu. A passagem entre paradigmas - a transição paradigmática - seria assim, semicega e semi-invisível[6].
Nos ambientes acadêmicos e nas instituições de pesquisa, a busca do novo não ocorre somente pelo caráter de vanguarda que sempre deve existir nestes ambientes, mas pela convicção crescente da impossibilidade de o atual paradigma responder certas questões suscitadas no contexto da atual crise do modelo civilizatório, cuja dimensão mais aparente é a crise ecológica, mas que também é social, econômica, cultural, institucional etc. Isto remete a um aparente paradoxo. Se os sinais de falência do paradigma atual ou as evidências da crise, que são a mesma coisa, são tão claros, por que os cientistas não aderem maciçamente a novos ares paradigmáticos? Uma explicação plausível é que a maioria deles ainda não percebeu que o paradigma vigente é o maior responsável pela crise em que a humanidade encontra-se mergulhada. Assim, a base epistemológica do paradigma vigente representa o maior obstáculo a uma ruptura paradigmática, reforçando o que o próprio Capra definiu como "crise de percepção".
Se for válida a suposição de que grande parte dos técnicos e cientistas ainda não percebeu que é impossível promover qualquer ruptura a partir da base epistemológica que orienta o atual paradigma e que a sua manutenção por mais tempo aumenta os riscos de colapso dos principais sistemas ecológicos e socioculturais do planeta, então há que se buscar em algumas das mais importantes correntes filosóficas da modernidade a explicação para esta suposição.
O empirismo, corrente filosófica inaugurada por Francis Bacon[7], tinha como objetivo o domínio sobre a natureza, utilizando a experiência e os sentidos como fonte do conhecimento. Bacon parte dos fatos empíricos do mundo natural para promover a dúvida crítica com respeito ao saber tradicional, parte da investigação metódica e da classificação sistemática da informação baseada em dados objetivos, da rigorosa experimentação e da aplicação essencialmente prática de todo o conhecimento. Um dos reflexos da corrente filosófica empirista na ciência contemporânea é a repetição experimental utilizando metodologias indutivas, prática dominante em nossas academias até os dias de hoje.
O racionalismo, corrente filosófica a que pertence Descartes, surge em oposição à filosofia empirista. Segundo a doutrina filosófica racionalista, os conhecimentos válidos e verdadeiros sobre a realidade são procedentes da razão e não dos sentidos e da experiência. A tese do reducionismo contida na segunda regra do método de Descartes - "cada dificuldade deve ser dividida em tantas partes quanto seja possível e necessário para melhor poder resolvê-las"[8] - teve com reflexo a especialização de técnicos e cientistas. Além do reducionismo, a filosofia racionalista teve outro reflexo sobre a ciência contemporânea: a interpretação das pequenas partes, levada ao extremo, resultou na tendência à compartimentalização do saber.
Por sua vez, o positivismo de Auguste Comte[9] estabelece uma série de afirmações com pretensão de verdade, relacionadas ao modo de entender a natureza. O conhecimento positivo é aquele proveniente dos sentidos e define que os "fatos" são os únicos objetos possíveis de conhecimento. Assume a fé no progresso da ciência como única forma de conhecimento válido: a ciência proporciona um conhecimento puramente descritivo que deve se estender a todos os campos do saber, incluindo o homem. Para Comte, o saber positivo designa o real em oposição ao quimérico, o contraste do útil ao ocioso, a oposição entre a certeza e a dúvida, entre o preciso e o vago. Mas, principalmente, o conceito "positivo" é expresso como contrário de negativo. A busca da certeza e da verdade também foi incorporada às práticas acadêmicas, como máxima quase absoluta.
De forma resumida, portanto, pode-se dizer que o paradigma da ciência ocidental encontrou alguns de seus fundamentos no empirismo (o conhecimento obtido pela experiência repetida), no racionalismo (a redução do todo a partes pequenas para melhor estudá-las, que teve como corolário a especialização); e no positivismo (o conhecimento objetivo e verdadeiro sobre a realidade estudada e a supremacia incontestável da ciência na produção do conhecimento válido). Para a pesquisa agronômica, o empirismo representa o experimento, a parcela experimental; o reducionismo, a especialização e a compartimentalização do saber, já o positivismo representa a verdade, a certeza, o conhecimento neutro e universal.
Então, estudar epistemologia tem o sentido de ir além das aparências, da falsa ilusão da busca do conhecimento objetivo, da obtenção do conhecimento válido, neutro e verdadeiro. Tem também como objetivo desmistificar a existência de monopólio da ciência sobre o conhecimento, mostrando que existem outras formas de conhecimentos hoje reconhecidas como fontes também válidas, ainda que produzidos fora dos ambientes acadêmicos. Que não existe apenas a busca do conhecimento desinteressado sobre como "as coisas funcionam". A epistemologia nos ajuda a mostrar que "essa coisa chamada ciência" é apenas uma construção social, o que não significa que não seja muito importante.
Neste caso, a Agroecologia representa um poderoso instrumento e uma necessidade para a ruptura com a tradição epistemológica nascida no empirismo, no racionalismo e no positivismo. No entanto, a Agroecologia pode representar um avanço paradigmático somente para aqueles que estão em busca do novo, o que infelizmente ainda representa uma minoria nas academias e instituições de pesquisa contemporâneas. Na Agroecologia, vista como disciplina ou princípio científico, as premissas teóricas são radicalmente diferentes de alguns princípios oriundos de correntes filosóficas que moldaram a produção do conhecimento e até o arranjo social na moderna sociedade ocidental. A base epistemológica da Agroecologia incorpora a complexidade; a dúvida, a incerteza, e pretende ser inter ou transdisciplinar; sua pauta é a temática e não a disciplina; além de reconhecer os saberes tradicionais e cotidianos como também válidos.
A segunda grande questão proposta pela Agroecologia é a necessidade de uma revisão metodológica que permita superar a aplicação linear da estrutura metodológica das ciências naturais, incorporando também a das ciências sociais. Ou ao menos que se possa trabalhar na perspectiva de um pluralismo metodológico, o que já vem sendo praticado em alguns casos. Se agora não mais importa apenas o domínio humano sobre a natureza, se o que interessa é a promoção de uma relação mais harmoniosa entre a sociedade e a natureza, então há que se trabalhar com os métodos que explicam a sociedade e não só com os que ensinam a explicar e a dominar a natureza (é o que Prigogine & Stengers[10], denominam "Nova Aliança"), já que não há mais como desconhecer que sociedade e natureza mantêm mútua determinação onde uma conforma a outra.
A tradição de pesquisa fundada no empirismo, no racionalismo e no positivismo fez da parcela experimental e do laboratório o lócus preferencial de sua ação cotidiana. Isto ajudou a aperfeiçoar um dos ritos sagrados da pesquisa científica, o controle das variáveis e o rigor experimental, ambos importantes para a aplicação de testes estatísticos, por exemplo. Mas, por outro lado, também teve como resultado o distanciamento entre os pesquisadores e o meio real onde operam agricultores e produtores rurais. Ou seja, provocou uma dissociação entre a produção e a aplicação do conhecimento. Mas não só isso: provocou também a adoção de uma falsa concepção de que existe certa linearidade nas necessidades e demandas de pesquisa, o que, por sua vez, provocou o quase completo esquecimento de alguns públicos, que têm tido escasso acesso às políticas públicas.
O que se pretende é que a incorporação de estruturas metodológicas até então pouco usadas na pesquisa agropecuária permita reforçar uma prática científica que prime não só pelo rigor, mas que promova a democratização do conhecimento via aplicação de técnicas e métodos de pesquisa. A adoção dos princípios da pesquisa participativa, da pesquisa-ação, a utilização de metodologias como diagnóstico participativo, leitura de paisagem etc. permitem o re-encontro de produtores e usuários de conhecimento, de forma abrangente e democrática. A relação entre sujeitos com conhecimentos diferentes capazes de articular um terceiro nível de conhecimento é o que Paulo Freire[11] propunha com o método dialógico.
Ou seja, os princípios da Agroecologia também constituem instrumento para organizar políticas públicas, inclusive de ciência e tecnologia ou de pesquisa e desenvolvimento, de modo que o conhecimento possa ser apropriado de forma equânime. Sem a pretensão de receita, isso é possível desde que se aceitem alguns pressupostos. Em primeiro lugar, por intermédio de um processo de prospecção de demandas baseado no diálogo que dê voz e vez a muitos atores sociais que não têm tido facilidade de expressar as suas necessidades. Principalmente aqueles de recursos mais escassos, que vivem em locais mais afastados ou que têm dificuldades para desenvolver mecanismos de organização e participação, os públicos da reforma agrária, os quilombolas, as populações indígenas.
Outro ponto importante para a Agroecologia é a própria participação, não para legitimar interesses ou propostas de "fora para dentro" ou "de cima para baixo". Para a Agroecologia, a agricultura é fruto de um processo de coevolução entre uma sociedade específica e seu ecossistema, portanto, trata-se de realidade complexa que envolve processos sociais e ecológicos. De tal forma que, numa visão ampliada do desenvolvimento rural, se aborde a realidade desde uma visão mais integral, em que os processos ecológicos e sociais sejam considerados, a ponto de que a intervenção, ao mesmo tempo, destape fragmentos pouco visíveis da realidade estudada, e seja apropriada pelos atores sociais envolvidos.
Neste sentido, a participação é condição essencial, pois é instrumento de mobilização social que fortalece os laços comunitários e o sentido comum, com a finalidade de desencadear processos de ação social coletiva nos quais as pessoas reconhecem o valor dos recursos e demais elementos constituintes de uma condição local (muitas vezes assinalada como marginal), com fins de estabelecer planos de longo prazo, numa perspectiva de desenvolvimento endógeno. Para a Agroecologia, a incorporação da participação como pressuposto epistemológico permite ganhos em conhecimento e em criatividade, assim como permite estabelecer processos transformadores de longo prazo.
A participação "verdadeira" tampouco é aquela que traz embutida a idéia moral de tutela ou de favor. Estas não são coisas fáceis de realizar, até mesmo porque existem barreiras de ordem institucional e pessoal, produto de uma cultura que sempre considerou a produção do conhecimento como algo "universal", e não como construção sócio-histórica que ocorre em espaços de interesses, de disputas e de conflitos. O que se dá não só de forma ampliada na sociedade, mas também internamente nas instituições (já que estas tendem a reproduzir o que acontece nas sociedades onde estão inseridas). Ainda assim, os princípios teóricos da Agroecologia poderiam ser usados como instrumento para tirar a atividade científica da redoma, da torre de marfim, fazendo com que o cientista assuma também o seu caráter cidadão, a responsabilidade sobre o que faz, saindo da comunidade restrita de pares para a comunidade estendida de pares[12], do laboratório e da parcela para atuar junto e com os agricultores e produtores rurais.
Outra grande perspectiva da Agroecologia é sua dimensão sociológica. Para a Agroecologia como disciplina científica, não existe um conhecimento de caráter universal ou a-histórico, que sirva para todos e em qualquer lugar. Ao contrário, públicos específicos necessitam políticas também específicas. Isto representa implicações para as instituições públicas, principalmente para as que atuam em programas de pesquisa e desenvolvimento e que pretendem pautar suas ações por objetivos sociais (não se deveria esperar outra coisa de instituições públicas do Estado). Por objetivos sociais entende-se a busca de modelos de desenvolvimento não pautados apenas pelo crescimento econômico, importante, mas insuficiente para que a própria sociedade possa sustentar-se. A Agroecologia se caracteriza por uma abordagem integral da agricultura, onde as variáveis sociais têm papel de alta relevância. Ou seja, ainda que parta da análise da unidade de produção em sua dimensão técnica (estratégias de artificialização ecocompatíveis da natureza para a produção de alimentos), a Agroecologia pretende sobretudo entender as múltiplas formas de dependência que o funcionamento da política, da economia e a sociedade geram sobre os agricultores.
A partir daí, as análises da Agroecologia concentram esforços na dimensão comunitária em que se inserem os agricultores, isto é, a realidade sociocultural que proporciona uma práxis intelectual e política da identidade local e de sua rede de relações sociais. Isso requer amplas relações institucionais (públicas, privadas e terceiro setor) para promover o sinergismo entre as políticas públicas, com vistas a obter soluções mais integrais ou mais ampliadas dos problemas.
A última dimensão tratada aqui é a tecnológica. Ainda que a pesquisa em Agroecologia dependa de bases epistemológicas, metodológicas e sociológicas bem definidas e aceitas pelos pesquisadores, a base tecnológica não pode ser negligenciada, pois é neste campo que os agricultores que iniciam a transição agroambiental enfrentam os maiores problemas e, portanto, têm mais expectativas. Este é exatamente o tema em debate nesta edição e interessa a todos os que labutam no campo agroecológico.
Existe muita confusão entre Agroecologia como conjunto de princípios científicos, perspectiva adotada no texto, ou como meras práticas a serem usadas na produção limpa. Existem mesmo aqueles que vêem na Agroecologia uma "estratégia para ocupação de "nichos de mercado", o que representa um grande equívoco. A verdadeira Agroecologia, além da produção limpa, trata da ética e da solidariedade na produção e no consumo, busca o desenvolvimento endógeno e local, a independência dos agricultores e não a sua subordinação a "donos" do conhecimento e da tecnologia. Usa a livre circulação do conhecimento como estratégia para a eqüidade e a justiça social, defende a manutenção da biodiversidade ambiental, natural, social e cultural.
A estratégia tecnológica da Agroecologia tem como primeiro passo a transição de um enfoque disciplinar para um enfoque temático. Para a produção de novos formatos tecnológicos, é necessário um conhecimento mais profundo das interações ecossistêmicas, o que demanda uma abordagem por grandes temas com a transversalidade de todas as disciplinas. Trata-se de produzir tecnologias apropriadas e contextualizadas para agroecossistemas locais, que permitam potencializar os recursos localmente disponíveis, gerando agroecossistemas mais autônomos e eficientes em termos energéticos.
Nesse caso, o ponto de partida é a substituição de insumos e/ou o redesenho de agroecossistemas, buscando formatos tecnológicos que favoreçam a inclusão social, sustentando a diversidade de estratégias de uso e manejo dos recursos naturais, expressadas na forma de "estilos de manejo" que produzem distintos produtos e sub-produtos que, por sua vez, podem constituir diferentes processos de transformação. Este conjunto de processos constitui a "qualidade", entendida como uma construção social, ou seja, influenciada pelo contexto socioeconômico, cultural e ecológico em que se realiza a produção e por diferentes atores que interpretam. Assim, os formatos tecnológicos da Agroecologia requerem níveis mais profundos de entendimento dos processos biológicos, dos fluxos de energia e matéria e das relações socioeconômicas para a produção de tecnologia. Isso demanda especialistas e pesquisas complexas, não reducionistas.
A compreensão de muitas coisas que ocorrem nos campos da fisiologia, da microbiologia, da bioquímica, entre outros, é o que vai proporcionar as condições tecnológicas para a transição agroambiental. Talvez seja esta a mais marca da diferença entre os sistemas agroecológicos e os sistemas convencionais de agricultura, ou seja, enquanto os sistemas convencionais são cada vez mais intensivos em insumos químicos e energéticos, isto é, em capital, os sistemas sustentáveis agroecológicos são intensivos em conhecimentos.
Outro grande desafio a superar é o de suprir a necessidade de insumos adequados ao "novo" formato tecnológico. Para a pesquisa, a tarefa é a de "descobrir" ou validar insumos que viabilizem a independência dos agricultores, e que não representem apenas uma mera substituição de pacote (o que, de certa forma, já está ocorrendo). É necessário pesquisar práticas de agricultores, outros processos fomentados empiricamente por organizações de desenvolvimento, adaptações de tecnologias originárias de outros contextos, inclusive sintetizando tecnologias e processos desenvolvidos na pesquisa convencional, sempre no sentido de instrumentalizar os agricultores e diminuir sua dependência e não para que um pequeno grupo se aproprie do conhecimento.
Outro segmento de importância estratégica é o de recursos genéticos. A busca de materiais que proporcionem a ampliação da base genética é fundamental no aumento da diversidade e na possibilidade de produção de novo germoplasma. Para isso, devem ser fortalecidas as ações voltadas para o manejo sustentável da biodiversidade existente na região, como é o caso das espécies pouco cultivadas e/ou nativas e a busca de parcerias estratégicas com instituições dos centros de origem das culturas de interesse regional.
E neste sentido que a Agroecologia atua na vanguarda da produção do conhecimento, mantendo uma ação proativa, antecipando-se aos anseios da sociedade, mantendo de forma permanente a reflexão crítica sobre o caráter de suas ações e de suas relações com a sociedade, sobre o papel do Estado, das políticas públicas e da pesquisa e desenvolvimento. Para isso, os pesquisadores em Agroecologia são constantemente instigados a realizar uma reflexão sobre sua própria prática. As perguntas "para quê?" e "para quem"? fazemos o que fazemos devem ser permanentes.
Estes são temas centrais na busca do "novo paradigma", no qual a "nova forma de conhecimento" deve ser prática sem perder o rigor na sua obtenção; e, ainda que o conhecimento seja obtido de forma "sofisticada", pela aplicação de metodologias específicas, deve ser democraticamente apropriado.
Para concluir, a Agroecologia surge como instrumento adequado não só para a promoção de um estilo de agricultura mais respeitoso com a natureza, mas também para tratar da produção, validação e circulação do conhecimento, para a definição de políticas públicas de ciência e tecnologia e de pesquisa e desenvolvimento que tenham como preocupação a construção de uma sociedade sustentável.
Como princípio científico, a Agroecologia não tem a pretensão de impor um caminho único para a história, tampouco se submete ao "pensamento único". Não mascara o jogo de interesses e conflitos na sociedade, ao contrário, pressupõe que a diferença é a base para a sustentabilidade em suas múltiplas dimensões. A Agroecologia prega princípios éticos, por isso não aceita linearmente que mais tecnologia signifique mais produtividade e portanto menos fome ou miséria. Os dados estão aí: produtividade e miséria, ambas estão aumentando. Por isso, a Agroecologia pode fortalecer ações e políticas públicas que pretendam a eqüidade, a inclusão social e a cidadania.
Para a Agroecologia, episteme, método e técnica só têm sentido no contexto sócio-histórico, ou seja, refuta-se a neutralidade, a pretensão à verdade e a universalidade da ciência e tecnologia e da pesquisa e desenvolvimento. Não existe um determinismo tecnológico, científico ou econômico. Tudo é questão de concertação social, na qual todos os atores têm o direito de indicar o que mais lhes convém.
Com esta proposta pretende-se que a Agroecologia, em sua perspectiva epistemológica, seja uma conquista contra a ilusão do saber imediato; em sua perspectiva metodológica, uma construção teórica; na perspectiva sociológica, um instrumento de empoderamento da sociedade; na perspectiva tecnológica, uma comprovação empírica. Reduzi-la a somente uma destas dimensões poderá significar abrir mão do que ela tem de mais significativo: exatamente a sua multidimensionalidade.

Outras fontes de consulta
HECHT, S. The evolution of agroecological thought. In: ALTIERI, M. A. Agroecology: the science of sustainable agriculture. 2 ed. London: WestView Press, 1995.
LUMMIS, C. D. Igualdad. In: SACHS, W. (ed.) Diccionario del desarrollo: una guía del conocimiento como poder. Lima: CAI - Centro de Aprendizaje Intercultural, 1997. p. 94-114.

[1] João Carlos Costa Gomes é engenheiro agrônomo, doutor em Agroecologia e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/Clima Temperado, Pelotas, Rio Grande do Sul - costa@cpact.embrapa.br

[2] Marcos Borba é médico veterinário, doutor em Agroecologia: pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/Pecuária Sul, Bagé, Rio Grande do Sul.
mborba@cppsul.embrapa.br

[3] KUHN, T. S. La estructura de las revoluciones científicas. México: Fondo de Cultura Económica, 1995

[4] CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1992.
[5] SOUSA SANTOS, B. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000.
[6] SOUSA SANTOS, B. Op. Cit.
[7] BACON, F. Novum organum. Madrid: Nueva Biblioteca Filosófica, 1933.
[8] DESCARTES, R. EI discurso deI método. Barcelona: Edi-cornunicación, 1994.
[9] COMTE, A. Curso de filosofia positiva, publicado em 6 volumes, entre 1830-1842.
[10] PRIGOGINE, I. & STENGERS, I. La nueva alianza - metamorfosis de la ciencia. Madrid: Alianza, 1994.
[11] FREIRE, P. Extensión o comunicación? La concientización en el medio rural. Santiago: ICIRA, 1969.
[12] FUNTOWICZ, S. & RAVETZ, J. Epistemología política: ciencia con la gente. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1993.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Artigo enviado pelo Prof. Casalinho como colaboração às discussões anteriores.

PALMIRA CASIMIRO, Ana. A atualidade do materialismo histórico e dialético. Tecitura, Brasília, DF, 1.1, 02 11 2006. Disponível em: <http://tecitura.jts.br//viewarticle.php?id=39>. Acesso em: 15 08 2007.

A atualidade do materialismo histórico e dialético

Ana Palmira Bittencourt Santos Casimiro1


Resumo
O presente artigo recupera alguns dos principais conceitos marxistas e a visão de sociedade em Marx, a qual deve ser compreendida de acordo com a concepção materialista, histórica e dialética da realidade, tal como foi definida pelo próprio Marx. Concepção indissociável e presente em toda a sua obra como expressão filosófica, científica e política do seu pensamento, segundo afirmações do mesmo para quem, quando se pretende estudar um país ou uma dada formação social, “o correto é começar pelo real e pelo concreto” que é a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor etc. Esses elementos é que dão origem aos sistemas econômicos, ao Estado, ao modo de se constituir a sociedade, à troca entre as nações e ao mercado mundial. Afirmou, ainda, que a evidência da realidade (a essência) se dá a partir do conhecimento da base material, tal como ele mesmo declarou no prefácio de Para a Crítica da Economia Política. A partir das principais obras filosóficas de Marx e de autores que revisaram suas teorias e questionaram sua validade na pós-modernidade, conclui-se que o pensamento de Marx, seus conceitos básicos e suas categorias dialéticas continuam a ser utilizadas tanto como métodos de abordagem quanto como instrumentos imprescindíveis para a análise da realidade. Mesmo quando omitidas pelos próprios autores.

Palavras-chave: Marxismo - materialismo histórico e dialético - categorias dialéticas

1.Introdução
Apesar do avanço do conhecimento científico e da crescente convergência de métodos usados nas ciências exatas para se explicar fenômenos acontecidos nas ciências sociais, como evidenciam Alan Sokal e Jean Bricmont (1997), observamos que o materialismo dialético continua sendo um método poderoso para se explicar os fenômenos sociais, mesmo quando, às vezes, ele aparece de maneira indireta.
Quem o diz é Boaventura de Sousa Santos no texto Tudo que é Sólido Desmancha no Ar: O Marxismo Também? (1995, p.23-49), da coletânea de textos do autor, publicada sob o título: Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Nas suas palavras,
Se para alguns autores, a obra de Marx, sujeita muitas vezes a exercícios de exegese escolástica, era o ponto de partida e o ponto de chegada da análise (Poulantzas e Wright, por exemplo), para outros, era apenas o ponto de partida (Bourdieu, Habermas, Gouldner, Giddens) e para outros ainda não era sequer o ponto de partida, embora a sua investigação só fosse inteligível contra um pano de fundo em que abundava o marxismo, como é o caso mais notável, de Foucault (SANTOS, 1999, p. 28).
Assim, vale a pena recuperar alguns dos conceitos de Marx, fundamentais para a compreensão do materialismo dialético e reintroduzir a discussão de como, para Marx, se organiza a sociedade, no geral, e uma formação social, no particular.

2.Pressupostos do método
Para se compreender a história da humanidade, e o desenvolvimento das ciências gerais, principalmente as ciências humanas, algumas questões, especificamente, devem ser postas e algumas afirmações devem ser feitas, tomando-se o método marxista, também chamado de materialista, histórico e dialético, como teoria geral de base.
Tal método é chamado materialista, porque parte da realidade material do objeto; histórico, porque leva em conta o movimento histórico onde o objeto está inserido sincrônica e diacronicamente; e dialético, porque parte do pressuposto de que nem a natureza nem a sociedade são fixas ou paradas, mas, estão em constante movimento dialético (daí a necessidade do uso das categorias dialéticas: o todo e a parte, o particular e o universal, a aparência e a essência; o passado e o presente).
As premissas do método marxista, e que servem para a compreensão de qualquer conceito (como ética, justiça, sociedade, ideologia etc.), são as seguintes:
O homem se humaniza no trabalho, pela transformação de objetos da natureza em ferramentas de trabalho e em bens para satisfação das suas necessidades básicas. Depois de satisfeitas suas necessidades básicas, o homem cria novas necessidades socioculturais (música, objetos de conforto, arte e lazer);
Além do trabalho, o processo de humanização se dá, também, pela vida em sociedade, junto com outros homens;
Porém, nas relações sociais, alguns homens se apropriam da terra, das ferramentas de trabalho, dos animais (pela força ou pelas guerras), e se transformam em donos dos meios de produção material;
A partir daí, a sociedade se divide entre aqueles que possuem os meios de produção e os bens produzidos e aqueles que não possuem. É assim que se formam as classes sociais;
Os que possuem os meios e o bens se apropriam, ainda, da força de trabalho de outros homens, que passam a trabalhar, ganhar um salário, mas não são donos dos bens produzidos e dos lucros, acumulando capital) e Célia E. A. de Piero. R.J. de Estadual do Sudoeste da bahia - UESB;
As classes sociais se configuram, portanto em grupos antagônicos, que são chamados de várias maneiras: aqueles que detém privilégios e aqueles desprivilegiados; ou ricos e pobres; dominadores e domi nados; vestidos e descamisados; com terra e sem terra; burgueses e proletários; escravos e senhores; patrões e empregados. Cada nome varia a depender de cada contexto histórico, ou de cada movimento político;
Os donos dos meios de produção e dos lucros passam a ser cada dia mais rico e os que vendem as suas força de trabalho recebem salários que dão apenas para satisfazer, muito mal, as necessidades básicas (por isso é que chama salário mínimo) passando a ser, cada dia mais pobres (hoje, desempregados, sem teto e miseráveis);
Nos países em que existem classes sociais antagônicas (hoje são todos, basta ver as pirâmides da concentração de renda), as classes que dominam o dinheiro (o capital), dominam também o Estado, a política, a justiça, os meios de comunicação, a educação; as forças armadas etc;
Assim, a educação é feita para os que possuem; o Estado contempla aos ricos; a justiça protege aos poderosos; os meios de comunicação veiculam mensagens de perpetuação do sistema; a polícia e o exército protegem os proprietários etc;
Além disso, esses donos do poder veiculam ideologias (idéias disseminadas na sociedade) que visam garantir e perpetuar os seus privilégios, levando a crer que é normal que existam aqueles que são os donos do Planeta e aqueles que devem ser escravizados, ganhar salário mínimo e não ter direito a um palmo de terra;
O termo ‘ideologia’ é compreendido aqui como um conjunto sistemático de idéias sobre a organização sócio-política e econômica da sociedade. Quando uma ideologia pretende organizar a sociedade em benefício de minorias privilegiadas, ela é unilateral. Igualmente a ideologia é unilateral quando pretende se impor pela força;
Essas ideologias se manifestam em todas as instâncias da vida social: nas escolas, nos livros, nas igrejas, nas novelas, na publicidade, na arte, nos noticiários etc;
Na medida em que essas ideologias asseguram a manutenção desse sistema de classes sociais antagônicas (manutenção do status quo), elas asseguram, também, a possibilidade de reprodução dessas mesmas classes no poder, pois anestesiam as consciências e escondem a verdadeira essência da realidade, com discursos falsos.

3.Revisitando a concepção marxiana de sociedade
Segundo o método materialista, histórico e dialético, para se analisar, compreender e explicar os fenômenos (ou objetos), e, depois, conceituá-los, tendo em vista a realidade social na qual eles se inserem, precisamos analisar essa realidade a partir de três focos. Isto é: devemos ter em mente: primeiramente, o modo como os homens produzem seus bens materiais (possuidores e despojados; países pobres e países ricos; propriedade privada; patrões e empregados; lucros para uns e salários para outros; desemprego etc.); em segundo lugar, o modo como se organizam em sociedade (classes sociais; forma de governo, elites intelectuais, religiões, movimentos sociais - dos sem terra, dos sem teto, greves, passeatas, sindicatos etc); e, finalmente, o modo como produzem conhecimentos (escolas, universidades, saberes, filosofia, pesquisas, estudos, livros, imprensa etc);
A visão de sociedade em Marx deve ser compreendida de acordo com a concepção materialista, histórica e dialética da realidade, tal como foi definida por ele próprio. Concepção indissociável e presente em toda a sua obra como expressão filosófica, científica e política do seu pensamento e que pressupõe: a) a ênfase na significação da natureza para o homem; b) a negação da autonomia das idéias na vida social; c) a concepção da centralidade da práxis humana na produção e a reprodução da vida social e, em conseqüência disso, d) a ênfase na significação do trabalho enquanto transformação da natureza e mediação das relações sociais, na história humana (BOTTOMORE, 1988, p.255).
De acordo com Marx (1996), quando se pretende estudar um país ou uma dada formação social, “o correto é começar pelo real e pelo concreto” que é a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor etc. Esses elementos é que dão origem aos sistemas econômicos, ao Estado, ao modo de se constituir a sociedade, à troca entre as nações e ao mercado mundial. Afirmou, ainda, que a evidência da realidade (a essência) se dá a partir do conhecimento da base material, tal como ele mesmo declarou no prefácio de Para a Crítica da Economia Política:
os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual (MARX, 1996, p.52).
Marx (1996) deixou claro, também, que não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência e afirmou, ainda, que, pela própria lógica das contradições dialéticas, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, sucedendo-se uma época de revolução social:
Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez (...) na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim (MARX, 1996, p.52).
Entretanto a compreensão da realidade a partir da concepção materialista, histórica e dialética não o impediu de valorizar a influência dos fatores superestruturais. Luckács (1979), ao examinar a tese de doutoramento de Marx, observou a colocação de um problema, paradoxal e de grande importância, na compreensão da obra marxiana que se divide em: a) enunciados diretos sobre um certo tipo de ser, ou seja, afirmações ontológicas e, b) nenhum tratamento autônomo de problemas antológicos;
Essas tendências encontram sua primeira expressão adequada nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, cuja originalidade inovadora reside, não em último lugar, no fato de que, pela primeira vez na história da filosofia, as categorias econômicas aparecem como categorias da produção e reprodução da vida humana, tornando assim possível uma descrição ontológica do ser social sobre bases materialistas. (LUCkÁCS, 1979, p.15).
Tudo isso ajuda a compreender as expressões: ‘condições de existência’ e ‘produção de consciência’ no sentido dado por Marx. Por outro lado, a maneira como ele analisou o ‘trabalho’, abre múltiplas possibilidades para o entendimento de seu método, pois aquele não exclui um fator teleológico ¾ o homem que projeta antes de fazer. É novamente Luckács quem evidencia o valor da categoria trabalho, tal como aparece na sua obra madura, contendo, porém, o cerne das suas idéias originais. Trabalho humano mediando natureza e sociedade:
Através do trabalho, tem lugar uma dupla transformação. Por um lado, o próprio homem que trabalha é transformado pelo seu trabalho; ele atua sobre a natureza exterior e modifica, ao mesmo tempo, a sua própria natureza [...] O homem que trabalha ‘utiliza as propriedades mecânicas, físicas e químicas das coisas, a fim de fazê-las atuar como meios para poder exercer seu poder sobre as coisas, de acordo com a sua finalidade’ [...] e tão-somente através de um conhecimento correto, através do trabalho, é que podem ser postos em movimento, podem ser convertidos em coisas úteis. Essa conversão em coisas úteis, porém é um processo teleológico: ‘no fim do processo de trabalho, emerge um resultado que já estava presente desde o início da idéia’ (LUCKÁCS, 1979, p. 16).
Antes disso, Engels, em carta a Bloch, explicou a tese marxista destacando o papel da superestrutura na concepção materialista da história:
o fator que, em última instância, determina a história é a produção e a reprodução da vida real. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais do que isso. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante converte aquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda. A situação econômica é a base, mas os diferentes fatores da superestrutura que se levanta sobre ela ¾ as formas políticas da luta de classes e seus resultados, as constituições que, uma vez vencida uma batalha, a classe triunfante redige etc, as formas jurídicas, filosóficas, as idéias religiosas e o desenvolvimento ulterior que as leva a converter-se num sistema de dogmas ¾ também exercem sua influência sôbre o curso das lutas históricas e, em muitos casos determinam sua forma, como fator predominante (MARX e ENGELS, s/d, p.284).
Para Engels, trata-se de um jogo de ações e reações entre todos os fatores infra e superestruturais, mas, onde acaba sempre por impor-se, como fator de maior importância, o movimento econômico. Isto quer dizer que
as premissas e as condições econômicas são as que decidem, em última instância. No entanto, as condições políticas e mesmo a tradição que perambula como um duende no cérebro dos homens também desempenham seu papel, embora não decisivo (MARX e ENGELS, s/d, p 285).
Engels refletiu bem o pensamento de Marx. Aliás, a colaboração intelectual entre eles foi fato declarado por ambos. Mas, a despeito disso, determinação da infra-estrutura como único motor histórico e dialético, acabou por se constituir, no florescer do marxismo, numa visão economicista, que não condiz com a concepção materialista marxiana. Surgiram, assim, apropriações e interpretações enviezadas das idéias de Marx, que se estabeleceram no pensamento contemporâneo, a despeito de seus próprios escritos.
Para ele, as mudanças na base material provocam mudanças em todas as camadas estruturais da sociedade, se bem que, nas sociedades atuais, principalmente a partir do aceleramento das relações capitalistas, é necessária uma atenção redobrada para se compreender como se movimentam as relações sociais, dados os inúmeros fatores que complicam tais relações, camuflando a realidade concreta.
Por circunstâncias históricas, a determinação da infra-estrutura como único motor histórico e dialético, acabou por se constituir, no florescer do marxismo, numa visão economicista, que não condiz com a concepção materialista marxiana. Surgiram, assim, apropriações e interpretações enviezadas das idéias de Marx, que se estabeleceram no pensamento contemporâneo, a despeito dos próprios escritos marxianos. Mas ele deixou isso bem claro, ainda em vida, como, por exemplo, na carta que escreveu a Annenkov, datada de 1846:
As determinadas fases de desenvolvimento da produção, do comércio, do consumo, correspondem formas determinadas de organização social, uma determinada organização de família, das camadas ou das classes; em resumo: uma determinada sociedade civil. A uma sociedade civil determinada corresponde uma situação política determinada que, por sua vez, nada mais é que a expressão oficial dessa sociedade civil [...] Conclusão obrigatória: a história social dos homens nada mais é que a história do seu desenvolvimento individual, tenham ou não consciência disso. Suas relações materiais constituem a base de tôdas as demais relações (MARX e ENGELS, s/d, p.245).
Marx usou a palavra sociedade, em três sentidos: 1) a sociedade humana, ou ‘humanidade socializada’ enquanto tal; 2) tipos historicamente existentes de sociedade (por exemplo a sociedade feudal ou a sociedade capitalista); e, 3) qualquer sociedade particular(por exemplo, a Roma antiga ou a França moderna). O que há de característico nessa concepção é, primeiro, que ele partiu da idéia de seres humanos que vivem em sociedade e são seres sociais; segundo, é que ele não separou a sociedade da natureza, pelo contrário, os seres humanos foram vistos como parte do mundo natural, que é a base real de todas as suas atividades. “A produção e a reprodução da vida material, pelo trabalho e pela procriação, são, assim, uma relação ao mesmo tempo natural e social, diz-nos Marx nos Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844” (BOTTOMORE, 1988, p. 342).
Pressupostos da existência da sociedade, para Marx:
São pressupostos da existência da sociedade: a) o homem (concreto); b) homens diante de um substrato (a natureza); c) homens em relação com a natureza; d) homens em relação com outros homens (produção social); e) homens produzindo (consciência, representações, mentalidade, arte, religião).
São componentes essenciais da sociedade: a) uma economia (produção/circulação/consumo); b) uma cultura (modo de vida, objetos culturais); c) uma organização (família, tribo, horda, Estado). Com isso, pretende-se encontrar características comuns a “todas” as sociedades (perspectiva antropológica).
A sociedade historicamente existente situada e localizada caracteriza-se por possuir: a) um modo de produção/reprodução da existência; b) uma formação social específica.
Para se compreender melhor o conceito de sociedade, pretendido por Marx e presente em toda a sua obra, mas, principalmente, na sua obra inicial, deve-se tomar como ponto de partida a visão de mundo marxiana, denominada por Felipe Serpa como ‘metamoderna’ (s/d, p. 4) isto é, o modo como os homens produzem os bens materiais; o modo como produzem conhecimento e o modo como organizam a sociedade.
Nessa perspectiva está contida a concepção filosófica marxiana que pressupõe a relação homem-natureza (como a de sujeito-objetivo e a de objeto-subjetivo, uma vez que o homem é parte da natureza e uma vez que a sua práxis transforma a natureza) e a relação homem-sociedade. Marx só admitiu a relação homem-sociedade como relação mediada pela práxis e pelas relações na produção da vida material. Nesse caso, pela práxis, homem-natureza-sociedade estão indissociavelmente ligados. Serpa, em abordagem original, desenvolve a temática da visão metamoderna e o conceito de historicidade em Marx, tomando por base a Ideologia Alemã:
Conhecemos apenas uma única ciência, a ciência da história. A história pode ser considerada de dois lados, dividida em história da natureza e história dos homens. No entanto, estes dois aspectos não se podem separar; enquanto existirem homens, a história da natureza e a história dos homens condicionam-se mutuamente (MARX e ENGELS, apud Serpa, 1991, p.44).
No entender de Serpa, é neste ponto que se encontra o princípio unificador de superação da contradição homem-natureza, e a base desse princípio é a historicidade do homem e da natureza. Pois, de acordo com o conceito de Marx, o homem é um ser objetivo, sensível, real, vivente e corpóreo que expressa sua vida em objetos sensíveis reais. Além disso, segundo o filósofo, ‘um ser não-objetivo é um não-ser’. Além disso, o homem não é somente um ser natural, ele é um ser natural humano, isto é, um ser da espécie que tem seu processo de origem na história.
No caso marxiano, a atividade humana (práxis) objetiva o sujeito e subjetiva o objeto. Além disso, para Marx, o trabalho é a objetivação da vida da espécie humana e, mais do que isso, a relação do homem com seu trabalho é, também, a sua relação com outros homens, isto é, o ser social. Então, afirmou Marx, na produção, o homem não somente atua sobre a natureza, mas também sobre outro homem e, para produzir, eles entram em conexão e relações entre si e somente dentro dessas conexões e relações sociais sua ação sobre a natureza, a produção ocorre. Essa práxis se dá na história e é mediante essa atividade, envolvendo matéria e conhecimento (atividade gnoseológica e ontológica), que, na concepção marxiana, o homem e a sociedade emergem na História.
Em A Ideologia Alemã (1981), Marx considerou a história em si como uma parte real da história natural e da história do homem tornando-se natureza, e foi por isso que ele definiu a história como ciência dividida em história da natureza e história dos homens. Portanto, na sua obra inicial, mais precisamente, nos Manuscritos econômicos e filosóficos vai colocar a questão da origem do homem e do universo, a fim de reiterar o ser auto-mediado e, assim, trabalhar na relação homem-sociedade-ciência, com base na história, que nada mais é que a criação do homem através do trabalho humano, na práxis humana (SERPA, s/d, p. 29).
Assim, nesses textos iniciais, Marx trabalhou com questões e respostas sobre a ciência da história a partir da idéia de que a história universal é construída a partir da criação do próprio homem, através do trabalho humano e da sua relação-transformação da natureza, em um processo no qual, ao invés da relação de causa e efeito, acontece a emergência, do homem e da sociedade, advinda de um processo anterior.
É a partir desse entendimento que Serpa, ao considerar uma possível estrutura da teoria da História, explica a concepção marxiana da natureza e da história natural como predecessoras da história da qual emergem o homem e a sociedade. O autor afirma:
É na visão de mundo de Marx expressa na concepção de homem e natureza, tendo como substrato a História, ou seja, a historicidade do homem e da natureza, que se encontra a característica metamoderna, pois homem e natureza não se contrapõem e sim se estendem reciprocamente através da práxis humana, tendo como fundamento a história. É uma visão de mundo natural e humana, que supera as antíteses idealismo-materialismo e sujeito-objeto [...] Em síntese, a visão de mundo de Marx expressa na concepção de homem e natureza é qualitativamente distinta da visão de mundo moderna, onde a relação sujeito-objeto forma uma antítese (SERPA, s/d, p. 13).
Assim, Marx tratou a relação entre a sociedade e a natureza como um intercâmbio que se desenvolve historicamente através do trabalho humano e que ao mesmo tempo cria e transforma as relações sociais entre os seres humanos. Segundo Bottomore:
Esse processo histórico tem dois aspectos: o desenvolvimento de forças produtivas (ou o progresso tecnológico) e a divisão social do trabalho em permanente transformação que constitui as relações sociais de produção e sobretudo as relações de classes” (BOTTOMORE, 1988, p. 343).
Concluímos, concordando com Boaventura Santos, para quem a obra de Marx, era e é o ponto de partida e o ponto de chegada da análise para alguns autores; era apenas o ponto de partida para outros; e, para outros, ainda, não era sequer o ponto de partida, embora a sua investigação só fosse inteligível contra um pano de fundo em que abundava o marxismo. Assim, apesar do avanço do conhecimento científico e da crescente convergência de métodos usados nas ciências exatas para se explicar fenômenos acontecidos nas ciências sociais, observamos que o materialismo dialético continua sendo um método poderoso para se explicar os fenômenos sociais, mesmo quando, às vezes, ele aparece de maneira indireta.

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1Mestre em Teoria e História da Arte; Doutora em Educação; Professora Titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). E-mail: casimiro@
Direitos Autorais para artigos publicados nesta revista são do autor, com direitos de primeira publicação para a revista. Em virtude da aparecerem nesta revista de acesso público, os artigos são de uso gratuito, com atribuições próprias, em aplicações educacionais e não-comerciais.
Artigo original em: http://tecitura.jts.br//viewarticle.php?id=39&layout=html

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Texto 2 - O enfoque sistêmico e o desenv. rural sust.: (...)

Segundo texto - Leitura para o dia 20/agosto/2007
ARTIGO
O enfoque sistêmico e o desenvolvimento rural sustentável: Uma oportunidade de mudança da abordagem hard-systems para experiências com soft-systems*
Pinheiro, Sergio L. G.**
* Artigo submetido ao X Congresso Internacional de Sociologia Rural, 30 de julho a 05 de agosto de 2000, Rio de Janeiro, Brasil, tema 23 - "Movimentos Rurais Alternativos".
** Pesquisador da área de economia e sociologia rural, Ph.D., Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Epagri/Ciram, C. P. 502, CEP 88304-901, Florianópolis, SC, Brasil. Fone: 55-48-2398030; Fax: 55-48-2398028; Email: pinheiro@epagri.rct-sc.br
Resumo:
O enfoque sistêmico tem sido aplicado na agricultura em resposta às crescentes críticas e falhas de projetos reducionistas e disciplinares de desenvolvimento rural direcionados aos pequenos agricultores familiares. A idéia geral da abordagem sistêmica era mudar a ênfase das estações experimentais para os experimentos em propriedades com a participação dos agricultores. Entretanto, apesar de algumas evoluções em aspectos como comunicação e participação, na maioria dos casos os resultados das experiências sistêmicas tradicionais têm feito pouca diferença. Este artigo sugere uma mudança do enfoque sistêmico tradicional ou "hard-systems", no qual predomina o controle de sistemas físicos de produção visando objetivos pré-determinados por agentes externos, para a abordagem "soft-systems", que enfatiza as relações humanas características dos complexos sistemas vivos. Esta alternativa está fazendo diferença em diversas experiências sistêmicas e oferece uma oportunidade importante para a construção do desenvolvimento rural sustentável.
Palavras-chave: Sistemas; sustentabilidade; hard-systems; soft-systems; desenvolvimento rural sustentável.
As origens do pensamento sistêmico na agricultura
A idéia de Sistema representa um conceito antigo, originário da palavra grega "Synhistanay" (que significa "colocar junto"), e se tornou mais evidente a partir dos anos 50, com o fenômeno conhecido como Crise da Ciência. Esta crise surgiu da inquietação dos cientistas em relação à crescente dificuldade de comunicação entre as várias áreas da ciência, as quais estavam se isolando em "subculturas" cada vez mais específicas. Refletiu também o esgotamento do modelo convencional de interpretação e análise da realidade, baseado nas filosofias de cientistas como Aristóteles, Galileu, Descartes e Newton. Através da proposição da Teoria Geral de Sistemas, houve uma perspectiva de mudança da visão disciplinar e reducionista para a holística e multidisciplinar.
Em geral, a emergência do pensamento sistêmico é entendida mais como uma evolução natural do que uma revolução científica. A percepção é de que a abordagem disciplinar ou reducionista se restringe a um pequeno grupo de problemas, os quais em sua maioria já foram solucionados. Problemas mais complexos, por outro lado, para serem solucionados precisariam de um enfoque sistêmico e multidisciplinar. Contudo, isto não significa que esta perspectiva deva substituir integralmente a visão disciplinar, mas sim que as características positivas das duas abordagens sejam aproveitadas. A própria disciplinaridade faz parte e é pré-requisito para a multidisciplinaridade.
A evolução na direção da visão sistêmica tem acontecido em várias áreas da ciência, como por exemplo na física, na biologia, na comunicação, na informática, na psicologia, na medicina, no estruturalismo linguístico, na cibernética, na eletrônica e, inclusive, na agricultura. Nesta área, o enfoque sistêmico tem se tornado cada vez mais necessário, devido à crescente complexidade de sistemas organizados e manejados pelo homem e da emergência do conceito de sustentabilidade, o qual lançou novos desafios na área rural, sobretudo em relação a questão sócio-ambiental. Neste contexto, a grande maioria dos sistemas agropecuários tem requerido uma abordagem holística e multidisciplinar, a fim de melhor serem entendidos e analisados.
Na agricultura, o enfoque sistêmico tem se tornado cada vez mais necessário, devido à crescente complexidade de sistemas organizados e manejados pelo homem e da emergência do conceito de sustentabilidade
O enfoque sistêmico tem sido aplicado em diversas ações de pesquisa, desenvolvimento, ensino e extensão rural, principalmente em resposta às crescentes críticas relacionadas aos projetos agrícolas reducionistas e disciplinares direcionados aos pequenos produtores familiares, os quais não têm se beneficiando dos resultados. Através do desenvolvimento de vários modelos sistêmicos de pesquisa e extensão em sistemas de produção, a expectativa era de que os resultados destas experiências fossem mais adequados e úteis aos pequenos agricultores familiares.
Sistemas: definição e princípios básicos
A palavra sistema permite diversas interpretações. Para efeitos de análise, neste artigo "um sistema é definido como um conjunto de componentes inter-relacionados e organizados dentro de uma estrutura autônoma, operando de acordo com objetivos determinados". Entretanto, mais importante do que a própria definição, são os princípios que o conceito de sistemas enfatiza, dentre os quais destacam-se os seguintes (Capra, 1996):
Visão do todo: A abordagem sistêmica visa o estudo do desempenho total de sistemas, ao invés de se concentrar isoladamente nas partes.
Interação e autonomia: Sistemas são sensíveis ao meio ambiente com o qual eles interagem, o qual é geralmente variável, dinâmico e imprevisível. A fronteira do sistema estabelece os limites da autonomia interna, a interação entre os componentes do sistema e a relação deste com o ambiente.
Organização e objetivos: Em um sistema imperfeitamente organizado, mesmo que cada parte opere o melhor possível em relação aos seus objetivos específicos, os objetivos do sistema como um todo dificilmente serão satisfeitos.
Complexidade: Este enfoque parte do princípio de que, devido a interações entre os componentes e entre o meio ambiente e o sistema como um todo, este é bem mais complexo e mais compreensivo do que a soma das partes individuais.
Níveis: Sistemas podem ser entendidos em diversos níveis, como por exemplo uma célula, uma folha, um animal, uma propriedade, uma região, o planeta e assim por diante, conforme ilustrado na figura 1. Um sistema em determinado nível pode ser entendido como um sub-sistema de outro nível.
Planeta

País

Região

Propriedade rural

Lavouras-rebanhos

Plantas-animais

Células
Figura 1 - Diferentes níveis de sistemas

Um estabelecimento agropecuário pode ser entendido como um sistema agrícola. A figura 2 representa esquematicamente uma propriedade rural vista como um sistema, identificando a sua fronteira, componentes, saídas e dois tipos de entradas (controláveis e não controláveis). De modo geral, estes sistemas são caracterizados pelo fato de serem organizados e manejados pelo homem em um ambiente incerto, visando objetivos de natureza predominantemente econômica. A meta principal na administração de um sistema agrícola é controlar as entradas e processos (componentes e interações) para otimizar as saídas. O grau de controle sobre estes sistemas varia, por exemplo, desde estabelecimentos de pastoreio extensivo até sistemas intensivos de avicultura e suinocultura, aonde a incerteza ambiental é reduzida através do uso crescente de capital.

entradas controláveis ->
entradas não controláveis ->
Sistema e
Componentes
-> Saídas
--- fronteira

Figura 2 – A propriedade agrícola vista como um sistema
A visão reducionista de desenvolvimento rural
Na maioria das ações de ensino, pesquisa, desenvolvimento e extensão rural, predomina a visão reducionista, conforme ilustrado na Figura 3. O foco é no objeto e o enfoque é disciplinar. O técnico estuda, de forma isolada, um componente de um sub-sistema específico (ex. uma planta, animal ou lavoura), geralmente relacionado com a sua área de interesse ou formação. Um biólogo, por exemplo, focaliza o estudo em uma planta, já um veterinário se preocupa, principalmente, com um animal. Outros sub-sistemas, assim como o sistema total, ou não são considerados ou são analisados separadamente, em outros momentos e por outros técnicos.
O agricultor, ator mais interessado neste processo, em geral não participa, acaba recebendo orientações técnicas inadequadas a sua realidade (desenvolvidas em ambientes diferentes e controlados), e muitas vezes recomendações divergentes. Em Santa Catarina é muito comum um pequeno agricultor familiar ser visitado pelo técnico de uma agroindústria à qual ele está integrado, e receber orientações específicas sobre um determinado produto (ex. suínos ou aves) prioritário para a indústria. Não raro as orientações implicam na realocação de recursos (como trabalho ou capital) simultaneamente demandados por outros sub-sistemas não menos prioritários para o agricultor, que fica em um impasse. Em alguns casos as sugestões dadas ao mesmo agricultor por técnicos das indústrias, das prefeituras e das ONGs locais são totalmente conflitantes (fruto de visões diferentes de desenvolvimento), deixando-o desorientado. Conseqüentemente, na maioria dos casos os pequenos agricultores familiares não têm adotado as tecnologias propostas.

A visão reducionista e disciplinar serviu de base para o fenômeno conhecido como "revolução verde", responsável por expressivos resultados em termos de produção e produtividade agrícola para algumas regiões (sobretudo as mais desenvolvidas), produtos (de exportação) e tipos de agricultores (com mais recursos financeiros). Entretanto, este fenômeno tem sido crescentemente questionado principalmente em função do aumento dos impactos sócio-ambientais negativos, da aceleração da concentração de renda e da "exclusão" dos pequenos agricultores familiares.
A evolução para a abordagem "hard-systems"
A visão de sistemas emergiu na agricultura como uma forma de solucionar ou minimizar os problemas que o enfoque reducionista e disciplinar não estava resolvendo, os quais estavam sendo ampliados pela revolução verde. Na prática, a perspectiva sistêmica foi originalmente aplicada através do enfoque conhecido internacionalmente como "hard-systems" (sistemas duros ou concretos), que tem como exemplos os trabalhos de Spedding (1977) e Hart (1980). O adjetivo "hard" ou "duro" se refere a natureza do sistema, o qual permite claramente a identificação de características como a fronteira, entradas, saídas, as principais funções e processos de transformação. Nesta concepção, o foco de estudo muda de apenas um componente (reducionismo) para o sistema (ou sub-sistema) de produção como um todo (holismo), e o agricultor é incluído e estimulado a participar do processo. O objetivo principal é o controle das entradas e saídas. O técnico, de fora, procura analisar o sistema, controlar a sua organização e as entradas visando otimizar saídas.
A abordagem hard é adequada principalmente para situações bem estruturadas, relativamente fáceis de serem medidas e quantificadas, aonde prevalecem leis conhecidas e um alto grau de previsibilidade. Talvez por isto esta abordagem tenha prevalecido na maioria das ações de ensino, pesquisa, desenvolvimento e extensão rural com enfoque sistêmico. Estas experiências têm sido aplicadas usualmente através de variações de modelos conhecidos internacionalmente como cropping systems research, farmer-back-to-farmer e farmer-first-and-last (Chambers e outros, 1989). A idéia geral era uma mudança de ênfase dos laboratórios e estações experimentais para a investigação em propriedades rurais com a participação dos agricultores. Estes modelos, embora com características particulares, em geral focalizam principalmente sistemas (ou sub-sistemas) físicos e concretamente definidos (como uma lavoura, propriedade ou região), por isso denominados hard-systems. Um dos principais aspectos em comum é a ênfase no controle das entradas e processos, visando a obtenção de resultados pré-determinados (ex. aumento da produtividade e adoção de tecnologias). Os instrumentos de investigação e manejo mais usados são quantitativos, como modelos matemáticos otimizadores ou de simulação para auxílio a tomada de decisão (ex. Dent & Blackie, 1979), a exemplo dos modelos desenvolvidos pela pesquisa operacional durante a segunda guerra com o objetivo de "maximizarem estragos com o mínimo esforço".
A visão de sistemas emergiu na agricultura como uma forma de solucionar ou minimizar os problemas que o enfoque reducionista e disciplinar não estava resolvendo
A aplicação dos modelos sistêmicos baseados na abordagem hard-systems tem sido importante para os pequenos agricultores familiares, sobretudo porque ajudam a "relaxar" algumas limitações dos modelos convencionais de ensino, pesquisa, desenvolvimento e extensão rural. Estes em geral se tornaram cíclicos e a participação tem sido estimulada através da inclusão de mecanismos de "feedback" ("retorno" de informações e resultados). Entretanto, alguns estudos indicam que em muitas circunstâncias o resultado destas experiências não tem feito diferença significativa quando comparados com resultados de projetos reducionistas e disciplinares.
Segundo Pinheiro (1998), na maioria destas experiências prevalece a "visão de controle" e a mesma concepção teórica que visualiza desenvolvimento como fruto de uma intervenção planejada de fora para dentro e centrada na adoção de tecnologias. O uso de métodos participativos tem incentivado a interação entre técnicos e agricultores, mas o processo de comunicação permanece o mesmo (transferência de informações). A participação dos agricultores continua limitada em termos de divisão de poder e responsabilidades, sendo em muitos casos induzida e controlada por agentes externos apenas como uma estratégia para alcançar objetivos predeterminados.
A emergência do enfoque "soft-systems" e do conceito de sustentabilidade
Em resposta às críticas e limitações da tradicional abordagem hard-systems, alguns autores (como Checkland, 1989; Bawden,1992; Ison, 1992; Schlindwein & D`Agostini, 1998) têm sugerido uma mudança das experiências sistêmicas na direção do enfoque internacionalmente conhecido como soft-systems (sistemas macios e abstratos).

Em contraste com um sistema (ou situação) "hard" (duro), um sistema (ou uma situação) "soft" (macio, leve) não é concretamente estruturado, dificilmente se associa a números e a leis genericamente aceitas, usualmente se baseia em uma ampla variedade de teorias (as vezes conflitantes) e é mais difícil de atingir um consenso sobre o seu comportamento ou funções. Em geral, qualquer situação mais complexa, incluindo seres vivos e sobretudo humanos, seria tipicamente denominada "soft".
Na concepção soft-systems, o foco de análise muda de objetos (característicos de sistemas físicos de produção) para as relações que caracterizam os sistemas vivos (sobretudo os seres humanos) e as interações destes sistemas (isto é, as pessoas) com o meio ambiente. O objetivo não é o controle do sistema visando obter resultados pré-determinados, como na abordagem hard (visão positivista). Na perspectiva soft, a intenção é principalmente entender as relações humanas e interagir (visão construtivista). O argumento é de que, ao contrário de sistemas físicos e não-vivos, o comportamento dos sistemas vivos não é determinado por fatores externos (ex. informação técnica). Segundo Maturana & Varela (1995), estes sistemas interagem com outros sistemas e com o meio, sendo estimulados por agentes externos. Contudo, a resposta a estes estímulos é determinada pela estrutura interna dos sistemas, e não por fatores externos. Nesta percepção, o técnico faz parte do sistema, interage com outros atores, como os agricultores e demais interessados ("stakeholders"), e todos participam do processo de construção dos resultados, os quais não são pré-determinados.
Na perspectiva soft, a intenção é principalmente entender as relações humanas e interagir (visão construtivista)
Ações de desenvolvimento, na concepção deste artigo, devem se preocupar principalmente com as relações entre as pessoas e com as interações entre estas e o meio ambiente bio-físico e sócio-cultural. Nesta perspectiva, o enfoque soft-systems se tornou mais relevante a partir de meados dos anos 80, com a solidificação da idéia de sustentabilidade, consagrada internacionalmente na Conferência Rio-92. Esta perspectiva reflete o aumento da preocupação com a questão sócio-ambiental, fruto da percepção de que o crescimento econômico e a consequente intensificação dos parâmetros de consumo estabelecidos pelos países industrializados do primeiro mundo têm causado uma pressão cada vez maior na exploração dos recursos naturais.
Apesar de haver um aparente consenso sobre a importância do desenvolvimento sustentável, este conceito significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Para aqueles mais preocupados com os aspectos econômicos, agricultura sustentável é sinônimo da manutenção da produção e do lucro de sistemas físicos de produção, se possível com baixo uso de insumos externos. Para aqueles com uma visão ecológica, sustentabilidade se refere ao uso balanceado de recursos renováveis e não renováveis e a diminuição da degradação ambiental. Para aqueles com uma perspectiva mais sociológica, agricultura sustentável não é puramente um problema de produção e produtividade física, mas um modo de vida para muitas pessoas e a manutenção de comunidades rurais estáveis. Outros argumentam que o desafio (alguns até diriam utopia) do desenvolvimento sustentável é procurar harmonizar os objetivos econômicos, ambientais e sociais do desenvolvimento (entre outros).
Partir de uma perspectiva essencialmente produtivista, que considera as pessoas como objetos ou componentes menos importantes (tipo "mão de obra") do processo de desenvolvimento, para uma visão que reconhece, nas relações humanas e nas suas interações com o meio ambiente, o foco central do desenvolvimento rural sustentável, requer uma mudança significativa em termos teóricos e práticos. A questão da sustentabilidade, analisada sob o ponto de vista mais físico, biológico e econômico, tem sido abordada principalmente através da visão reducionista e do enfoque hard-systems. Entretanto, a perspectiva da sustentabilidade centrada nos seres humanos e suas relações, é ainda pouco debatida. Este artigo argumenta que os problemas rurais, em sua maioria, dificilmente serão resolvidos a partir de um ponto de vista estritamente econômico ou técnico, uma vez que eles surgem como conseqüências de complexas interações entre os seres humanos e entre estes e o ambiente. Portanto, antes de ser uma propriedade independente ou relacionada apenas a objetos e sistemas físicos, a sustentabilidade é uma característica dos seres humanos, e pressupõe a possibilidade das pessoas ampliarem suas escolhas na construção da sua qualidade de vida, deixando de serem mero espectadores, para serem os atores principais do seu próprio desenvolvimento
É nesta concepção que o enfoque soft-systems emergiu como uma alternativa para o processo de construção do desenvolvimento rural. As principais diferenças entre as abordagems Hard e Soft-systems são sintetizadas no quadro 1.
Quadro 1 - As principais diferenças entre as abordagems Hard e Soft-systems
Hard-systems (Sistemas duros)
Soft-systems (Sistemas macios)
Foco em sistemas físicos de produção (e em objetos mais simples) e no controle das entradas visando otimizar saídas.
Foco nas interações de sistemas vivos e complexos (sobretudo humanos) e na construção social das decisões e ações.
Crença em uma única e objetiva realidade (a qual a ciência tem acesso privilegiado).
Acredita-se em múltiplas realidades (cada indivíduo interpreta a sua diferentemente).
Ênfase na identificação do problema, na solução técnica e no produto a ser obtido.
Ênfase no processo de formulação dos problemas e suas diversas interpretações.
Busca-se uma solução "ótima" para o problema identificado.
Procura-se construir várias soluções satisfatórias alternativas.
Maximização de um único objetivo (ex. desenvolvimento técnico e econômico).
Harmonização de vários objetivos (ex. desenv. econômico, social e ambiental).
Conflitos são em geral ignorados.
Consideração e manejo de conflitos.
Valoriza-se o conhecimento "local", mas prevalece a superioridade do "científico".
Todas as formas de conhecimento são igualmente válidas.
Comunicação como transmissão de conhecimentos e informações.
Comunicação como diálogo. Conhecimento é construído socialmente.
Paradigma positivista.
Paradigma construtivista.
Multidisciplinaridade.
Interdisciplinaridade.
Na agricultura, o enfoque soft-systems tem sido colocado em prática e feito diferença através de diversas experiências. Entre estes exemplos, destacam-se os trabalhos de pesquisa, extensão e desenvolvimento rural relatados por Ison & Russell (1999), as ações de muitas comunidades rurais e urbanas participantes do programa Landcare, o qual visa o manejo sustentável dos recursos naturais australianos (Scoones & Thompson, 1994, pp. 252-8), e a construção de sistemas de educação baseados no aprendizado experimental e na pesquisa-ação na University of Western Sydney, uma instituição agrícola em Hawkesbury, na Austrália (Scoones & Thompson, 1994, pp. 258-63).
A experiência dos agricultores agroecológicos de Santa Catarina, Brasil
No Brasil, um exemplo da aplicação do enfoque soft-systems no meio rural é a experiência agroecológica envolvendo comunidades organizadas na região da Encosta da Serra de Santa Catarina. Este processo está sendo construído a partir da iniciativa, entusiasmo e participação dos agricultores locais e de consumidores urbanos que têm suas origens e/ou relações de interesse e compromisso com a região. Estes atores estão organizados através da Agreco (Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral), e a experiência está sendo impulsionada atualmente por vários projetos de desenvolvimento, entre eles o denominado Vida Rural Sustentável. Este projeto foi elaborado pela Agreco em parceria com outras instituições com atuação regional, estadual e federal. Tem como princípio geral a sustentabilidade (nas dimensões técnica, econômica, social, ambiental, cultural e política), e para se alcançar este princípio, estabeleceu as seguintes diretrizes:
Desenvolvimento endógeno, construído a partir dos atores, recursos e potencialidades locais.
Uma nova proposta tecnológica para a região, baseada na Agroecologia.
Ênfase na diversidade biológica, social, cultural, econômica, religiosa, política e de sistemas agroecológicos (ex. hortifrutigranjeiros, animais, agroflorestais, grãos e agroturismo).
Ênfase na organização, na cooperação, na solidariedade e na participação.
Inclusão de segmentos sociais tradicionalmente marginalizados ou esquecidos (ex. jovens, mulheres e idosos), pois não há desenvolvimento sustentável com exclusão.
Construção de um território, valorizando as características sócio-culturais e ambientais.
Exploração de outros espaços da cadeia produtiva, agregando valor (via processamento e comercialização), criando uma marca e procurando "transformar" um segmento do mercado através de relações alternativas entre pessoas rurais e urbanas, produtores e consumidores.
A principal estratégia é procurar viabilizar a agricultura familiar através da aplicação dos princípios e fundamentos da Agroecologia, iniciando o projeto com a organização da produção, beneficiamento e comercialização de produtos agroecológicos. Esta proposta é complementada com atividades alternativas nas áreas de motivação, educação, capacitação, turismo, energia, saúde, suporte financeiro e organização fundiária, entre outras (Projeto Vida Rural Sustentável, 1999).
Não concluindo, mas ampliando o diálogo sobre alternativas sistêmicas de desenvolvimento
Não é objetivo deste artigo entrar em detalhes de projetos específicos (os quais podem ser encontrados nas referências), do contrário este texto se tornaria longo e repetitivo. O que se procura é refletir sobre abordagens sistêmicas alternativas e apresentar exemplos aonde a aplicação do enfoque sistêmico está fazendo diferença, sobretudo na concepção soft-systems.
A abordagem hard-systems tem prevalecido na agricultura, sendo usada como alternativa para ações de desenvolvimento rural nas situações em que projetos de pesquisa e extensão rural de características reducionistas e disciplinares se revelam inadequados ou insatisfatórios, como tem sido o caso daqueles direcionados aos pequenos agricultores familiares. Entretanto, alguns estudos indicam que, na maioria dos casos, os resultados destas experiências não têm feito diferença significativa quando comparados com os resultados de projetos reducionistas e disciplinares.
O argumento é de que, na abordagem hard, prevalece a "visão de controle" e a mesma concepção teórica que visualiza desenvolvimento como fruto de uma intervenção planejada de fora para dentro e centrada na adoção de tecnologias. É reconhecido que o uso de métodos participativos tem incentivado a interação entre técnicos e agricultores, mas o processo de comunicação permanece o mesmo, ou seja, transferência de informações (usualmente dos técnicos para os agricultores). A participação dos agricultores continua limitada em termos de divisão de poder e responsabilidades, sendo, em muitos casos, induzida e controlada por agentes externos apenas como uma estratégia para alcançar objetivos predeterminados (ex. adoção de tecnologias).
Em contraste, na perspectiva soft-systems, o foco de análise muda da visão de controle sobre objetos e sistemas físicos de produção visando "otimizar saídas" (visão hard e positivista), para os sujeitos (as pessoas) e as relações que caracterizam sistemas vivos e mais complexos (principalmente humanos). O interesse está no entendimento das relações humanas e nas interações dos sistemas vivos com o meio ambiente (visão construtivista). Nesta percepção, o técnico faz parte do sistema, interage com os outros atores participantes, como agricultores e demais interessados ("stakeholders"), e os resultados são construídos socialmente.
Não é intenção deste artigo sugerir que uma percepção sistêmica em particular é a melhor ou a mais adequada para todos os casos. A idéia é refletir sobre sistemas e a evolução do pensamento sistêmico na agricultura, considerando abordagens alternativas, visando alcançar uma maior flexibilidade, escapar das limitações de uma única visão do mundo e explorar diferentes possibilidades. Apesar das restrições, os enfoques reducionista e hard-systems têm sido úteis e adequados em muitas circunstâncias. A perspectiva soft-systems é interessante particularmente quando se estuda sistemas vivos e mais complexos, e o foco de análise está nas relações entre seres humanos e entre estes sistemas e o meio ambiente.
Em síntese, este trabalho argumenta que a mudança de ênfase da abordagem hard-systems para o enfoque soft-systems tem feito diferença em diversas experiências na agricultura, oferecendo uma oportunidade importante para a construção do desenvolvimento rural sustentável.
Referências bibliográficas
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SCHLINDWEIN, S. L., D´AGOSTINI, L. R. Sobre o Conceito de Agroecossistema. In: ENCONTRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE SISTEMAS DE PRODUÇÃO, 3., 1998, Pelotas. Anais do... Pelotas: EMBRAPA, 1998. (disponível em cd-rom)
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SPEDDING, C. R. W. Ecologia de los sistemas agrícolas. Madrid: Blueme, 1977.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Fichamento de texto Maciel - 14/08/2007


Disciplina: Sistemas de Produção de Base Ecológica - Professor: Dr. Hélvio Debli Casalinho
Texto 1: Doutorando: Antonio Maciel B. Machado - Data: 14/8/2007
CAPRA, F. A teia da vida: Uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Editora Cultrix, 1996. p.46-55

Com o advento da física quântica, por volta dos anos 30 do século XX, cientistas construíram a teoria sistêmica baseados nas escolas da Psicologia, da Ecologia e da Biologia, onde termos como conexidade, relações e contextos passaram a ter uma nova objetivação epistemológica.
Como característica chave do pensamento sistêmico pode-se apresentar: a) a mudança das partes para o todo, onde cada organismo passa a ser visto como uma totalidade dentro de um grande sistema e não mais como parte isolada como na ciência cartesiana; b) o critério que diz respeito à capacidade do pensamento sistêmico de deslocar sua atenção de um lado para outro entre diferentes níveis sistêmicos. Com isso, diferentes níveis sistêmicos apresentam diferentes níveis de complexidade. Essas propriedades, dentro de um determinado nível, são chamadas de “emergentes”.
Ainda sobre o primeiro critério o autor afirma que “as propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo maior”. Dessa forma, o pensamento sistêmico é chamado de “contextual”, pois considera o contexto ambiental em suas explicações. Em cada contexto os objetos são vistos como redes de relações embutidas dentro de redes cada vez mais complexas.
A visão de redes interconectadas de concepções sem fundamentos ou alicerces mais gerais foi formalizada pelo físico Geoffrey Chew, na década de 70. Com essa perspectiva, todo o universo material é visto e entendido como uma grande teia, sem que suas propriedades possam ser encaradas como fundamentais e sim como propriedades interconectadas. Esse raciocínio passa a valer também, do ponto de vista epistemológico, para as diferentes ciências que compõem o saber ambiental. Tanto a física, a química, a biologia, a ecologia, a psicologia, e demais ciências, pertencem a um nível sistêmico, porém sem que uma seja mais importante do que outra. Essa visão epistemológica de redes de relações foi trabalhada por Werner Heisenberg. Para ele, “o que observamos não é a natureza em si, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento”. Por isso, a ciência epistêmica se caracteriza por ser “o método de questionamento”, tornando-se parte integral das teorias científicas.
Além do contexto, outro fio importante na ciência sistêmica é o “pensamento processual”. Dessa forma, “toda estrutura é vista como a manifestação de processos subjacentes”. Para o biólogo vianense Ludwig von Bertalanffy, nos anos 30, todo pensamento sistêmico é sempre um pensamento processual. A partir dele, Claude Bernard aprimorou o conceito de “homeostase”, como mecanismo auto-regulador dos organismos que permite o estado de equilíbrio dinâmico. Bertalanffy formulou ainda uma nova teoria sobre “sistemas abertos”, depois sistematizou com as demais contribuições do pensamento sistêmico e da biologia organísmica uma “Teoria Geral dos Sistemas Vivos”. Por fim, substituiu os fundamentos mecanicistas pela visão holística.
Menos conhecido no ocidente, o médico, filósofo e economista russo Alexander Bogdanov, desenvolveu a teoria que ficou conhecida por “Tectologia” ou “ciência das estruturas”. Foi a primeira tentativa de se chegar a uma sistematização dos princípios de organização que operam em sistemas vivos e não vivos. Estudou os processos de regulação e auto-regulação. Quarenta anos mais tarde, outras contribuições de Norbert Wiener e Ross Ashby no campo da cibernética fizeram avançar essa teoria.
Grande contribuição da segunda lei da termodinâmica, de Sadi Carnot, de onde os sistemas físicos fechados se encaminharão no sentido da ordem para a desordem, ou seja, a “entropia” – medida da desordem. Para Bertalanffy, os sistemas vivos são abertos, ou seja, a entropia pode decrescer e as leis da termodinâmica podem não se aplicar. Somente em 70, com Ilya Prigogine, aprimorou a contradição de Bertalanffy com a teoria da auto-regulação de “estruturas dissipativas”.

Questão:
Segundo Fernando Rey, “Precisamente a complexidade pressupõe sistemas de onde a ordem e a desordem se integram dialeticamente na definição da qualidade de um sistema”. Entretanto, para Capra, na visão sistêmica a mudança das partes para o todo é uma das suas principais características epistemológicas.
Eu pergunto: Cabe, dessa forma, uma análise dialética marxista para se entender os fenômenos da natureza?

Sistemas de Produção de Base Ecológica

Professor Dr. Hélvio Debli Casalinho
UFPel, 11 de setembro de 2007

Este Blog é uma tentativa de unificar os textos e fichamentos produzidos pelos alunos da Pós Graduação da disciplina: Sistemas de Produção de Base Ecológica, ministrada pelo Professor Elvio Casalinho, da Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul.